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Estudante de veterinária que morreu em show e deixou 24 cães: ‘Eles são a Alice’

Evando Moreira
Jornalista, fundador, editor, analista político.

Alice sonhava em estruturar um serviço de resgate, castração e agência de adoção, algo que chamava de “SAMU dos bichos”.

Os latidos que ecoam em uma casa na Zona Sul de Porto Alegre são hoje a forma mais concreta de manter viva a memória de Alice de Moraes. A estudante de medicina veterinária morreu aos 27 anos, em 2022, após passar mal durante um show na Capital. Desde então, os pais assumiram o cuidado dos 24 cães que ela resgatou e transformaram o luto em continuidade. As informações são do g1.

Apaixonada por animais desde a infância, Alice sonhava em estruturar um serviço organizado de resgate, castração e encaminhamento para adoção, algo que chamava de “SAMU dos bichos”. A ideia nunca foi criar um abrigo superlotado, mas um sistema responsável, com acompanhamento individual de cada caso.

“Eles [os cachorros] são a Alice para nós”, diz a mãe, Angela Moraes.

A jovem ingressou na faculdade em 2016 e estava prestes a se formar. O projeto envolvia também o pai, André, que planejava se aposentar para trabalhar ao lado da filha. “O projeto era virar funcionário da Alice. Eu ia fazer um curso de tosa, para dar banho, de adestramento. Ela ia ser minha chefe. Eu também sou muito cachorreiro, então ia ser uma realização também minha de trabalhar com a minha filha”, conta André.

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A morte e a investigação

Alice morreu em 16 de julho de 2022, após sofrer um mal súbito em um show da cantora Luisa Sonza. A família sustenta que houve falhas no atendimento. “A maneira como a Alice morreu foi muito dolorosa porque ela foi negligenciada. Foi uma sucessão de erros que levaram à morte da minha filha”, relata André.

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Cinco pessoas chegaram a ser indiciadas por omissão de socorro naquele ano. Em 2024, porém, o Ministério Público do Rio Grande do Sul arquivou o caso, apontando ausência de nexo causal e de culpa comprovada dos profissionais envolvidos. A causa da morte foi considerada indeterminada.

Rotina puxada e contas altas

Se a dor é permanente, a rotina dos cães não pode esperar. Alimentação com dietas específicas, medicações, limpeza do pátio três vezes ao dia, controle de vacinação e silêncio à noite para respeitar a vizinhança fazem parte do dia a dia.

“Eles têm uma rotina, acordam cedo, querem sair, fazem as necessidades, querem comer, então tudo isso fazia com que a gente saísse da cama e seguisse aquilo que ali se fazia. Então, eles fizeram que a gente continuasse a vida”, explica Angela.

Cada animal carrega uma história, e um pedaço da filha. “Cada um é como os dedos da tua mão. Cada um tem um jeito, é diferente do outro, tem uma mania, mas todos eles são carinhosos. A gente reconhece, às vezes, pelo latido”, revela André.

O maior desafio, segundo a família, é arcar com despesas veterinárias. Internações, cirurgias e tratamentos, especialmente para casos de leishmaniose, pesam no orçamento. “A ração é o de menos, porque a gente compra ração boa, mas o pior é a parte hospitalar, de atendimento, quando precisa ir para uma clínica, a gente sofre muito, porque o tratamento, às vezes, não é eficaz e é caríssimo”, explica Angela.

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Lei Alice de Moraes

A mobilização após a morte resultou na criação da Lei Alice de Moraes, sancionada em Porto Alegre em janeiro de 2024. A norma estabelece regras mais rígidas para atendimento médico em eventos de grande porte, exigindo estrutura adequada, equipes completas e protocolos definidos.

“Para mim foi um presente, uma emoção muito grande. A Alice, assim como ela fazia com os animais, ela salva e vai salvar muitos jovens”, comenta a mãe.

“Essa lei vai salvar outras pessoas, outros jovens e vai poupar os pais desse sofrimento que a gente passa”, completa o pai.

Quase quatro anos depois, o luto segue presente, mas encontra sentido na continuidade do projeto. “Uma dor que vai estar sempre contigo. Tive de aprender a conviver com essa dor. Não importa onde eu esteja, não importa o lugar que eu esteja, tenho que aprender a conviver com essa saudade, com essas lembranças”, relata André.

“No luto, cada ano é diferente do outro. Aos poucos, tu vai acomodando essa dor dentro de ti, mas nunca esquece”, ressalta a mãe.

Entre canis reformados, portas abertas e cães que circulam livres pela casa, a família mantém viva a missão que Alice começou, cuidando de cada animal como forma de seguir cuidando dela.

DIÁRIO DO NORDESTE

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