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Número de mortos em terremoto na Venezuela sobe para 920
26 de junho de 2026
26 de junho de 2026

Duplo terremoto atinge uma Venezuela já abalada por outra catástrofe

Evando Moreira
Jornalista, fundador, editor, analista político.

Resgate improvisado e lento e falta de infraestrutura escancaram a inoperância de um Estado disfuncional, agravada por quase três décadas de comando chavista.

TOPO

Por Sandra Cohen

Especializada em temas internacionais, foi repórter, correspondente e editora de Mundo em ‘O Globo’

O duplo terremoto que assolou o território venezuelano na noite de quarta-feira desembocou na precariedade crônica que o país caribenho enfrenta há décadas sob administração chavista.

A improvisação nos resgates de sobreviventes, executados pelos próprios moradores, a lentidão na atualização do número de vítimas e desaparecidos e a carência geral de infraestrutura para atender a uma catástrofe, cujos efeitos se agravam a cada minuto, refletem o fracasso e a negligência do Estado no suporte à população.

Os números divulgados pelo governo não condizem com as cenas aterrorizantes de destruição, que escancaram a sensação de desespero de venezuelanos, aliada ao despreparo e à incapacidade dos sistemas de proteção civil. Um site criado pela população para rastrear os desaparecidos aponta mais de 40 mil pessoas.

“O terremoto atingiu um país já abalado por outra catástrofe: uma prolongada emergência humanitária, um governo autoritário e um ecossistema de informação profundamente deteriorado. Enquanto milhares tentavam localizar parentes desaparecidos, muitas plataformas permaneciam bloqueadas e a mídia independente continuava a enfrentar censura e restrições à sua atuação. Não sabíamos quantos prédios haviam desabado. Não sabíamos quantas pessoas haviam morrido. Nem sequer sabíamos para onde procurar”, resumiu a jornalista Gabriela Mejones Rojo, num dramático depoimento ao jornal espanhol “El País”.

O terremoto põe em xeque a transição política liderada pela presidente interina Delcy Rodríguez, no comando do país desde janeiro e sob a supervisão do governo americano, após a deposição de Nicolás Maduro.

descrição de “país feliz”, feita pelo presidente Donald Trump num comício antes do terremoto, parecia distante da realidade dos 68% dos venezuelanos que vivem em extrema pobreza. A inflação anual, de 524%, é a maior do mundo. A dívida do país, de US$ 240 bilhões, equivale a 180% do PIB, segundo o FMI.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez — Foto: REUTERS/Kevin Lamarque / Wendys Olivo/Palácio Miraflores/Divulgação via REUTERS

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez — Foto: REUTERS/Kevin Lamarque / Wendys Olivo/Palácio Miraflores/Divulgação via REUTERS

Os dois primeiros dias de socorro expuseram o Estado disfuncional perpetrado em quase três décadas pelo chavismo: a deterioração do sistema elétrico, que submete os venezuelanos a apagões diários, e a falta de água e de insumos médicos. A carência já era crônica antes da tragédia, fruto de má-gestão e corrupção.

“O terremoto não era previsível, mas sabia-se que ocorreria em algum momento. A mitigação de riscos, o preparo para desastres e a estrutura institucional para resposta a emergências são inexistentes em um país cujo Estado foi desprovido das capacidades mínimas para a gestão governamental. A corrupção e a incompetência chavista hoje se refletem na vida dos venezuelanos”, atestou o economista Omar Zambrano na rede X.

Como exemplo, há três dias, a Federação Médica Venezuelana pediu ao governo esclarecimentos sobre as 71 toneladas de medicamentos enviadas este ano pelos EUA e que não haviam chegado aos hospitais. Em abril passado, a entidade denunciou o desabastecimento e o abandono de 90% dos 301 hospitais.

São eles que, nessas condições, terão que arcar com a missão hercúlea do atendimento às vítimas.

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