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Disputa entre Ceará e Pernambuco derruba comando da Sudene e escancara guerra por trilhos e poder no Nordeste

Evando Moreira
Jornalista, fundador, editor, analista político.

O que houve:
A demissão de Danilo Cabral da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) expõe uma nova batalha subterrânea entre Ceará e Pernambuco, os dois estados mais influentes na política regional. Em meio à disputa por investimentos federais, a pressão política — capitaneada por lideranças cearenses — foi decisiva para a saída do ex-deputado federal do PSB. Oficialmente, o governo ainda não anunciou um sucessor. Extraoficialmente, a movimentação já é intensa nos bastidores.

Por que importa:
A Sudene é a principal autarquia federal voltada ao desenvolvimento da região, com poder de distribuir incentivos fiscais e coordenar projetos estruturantes. Ter o controle político da instituição é ter poder sobre as engrenagens do crescimento regional — e também sobre o discurso público.


O que está por trás da crise

1. O mapa da disputa:
Danilo Cabral, nome ligado à política pernambucana e aliado de Lula, caiu após perder sustentação entre governadores e parlamentares nordestinos. O motivo central: insatisfação com a condução da Sudene em obras como a Transnordestina, uma ferrovia bilionária que liga o sertão de Pernambuco ao porto do Pecém, no Ceará.

2. A obra que virou trincheira:
A Transnordestina tornou-se símbolo da disputa política entre  Ceará e Pernambuco. A decisão da concessionária TLSA (da CSN) de priorizar o trecho Missão Velha–Pecém — mais adiantado e juridicamente seguro — deixou em segundo plano o ramal de Suape, alimentando críticas em Pernambuco. A Sudene, sob Cabral, tentou retomar protagonismo, mas sem sucesso. O Planalto preferiu seguir com o que é viável.

3. Pernambuco isolado:
Em sua carta de despedida, Danilo evocou “questões regionais” e defendeu o “ramal pernambucano” como estratégico. Mas a realidade é que perdeu apoio até de aliados — e se viu sem sustentação para continuar no cargo.


O que vem agora

 Nomeação travada:
O Palácio do Planalto ainda não anunciou oficialmente o novo superintendente da Sudene. Mas a pressão por um nome do Ceará é forte. Nos bastidores, parlamentares cearenses citam a necessidade de “reorganizar prioridades” e “superar o impasse federativo”.

 O risco para Pernambuco:
Com a queda de Cabral e o enfraquecimento do grupo político pernambucano no entorno da Sudene, o estado corre o risco de perder protagonismo em decisões cruciais de desenvolvimento regional. Como disse um articulador de Brasília ao Focus Poder: “Não se trata de vingança. É só a hora de fazer andar o que está pronto.”

 A pergunta bilionária:
Quem garante os bilhões da Transnordestina? Com a priorização do trecho cearense, Pernambuco teme que os investimentos federais e privados se concentrem no litoral norte da região. O governo federal garante que “a obra completa será feita”, mas a confiança minguou.


Vai mais fundo: o que dizem os fatos

 Ramal viável x ramal travado
Desde 2021, o Focus Poder já alertava: o ramal Missão Velha–Pecém está com a casa em ordem — desapropriações feitas, licenças ambientais em dia, ausência de entraves judiciais. Já o trecho para Suape enfrenta indefinições fundiárias, ambientais e políticas.

“Na hora de tocar a obra, o caminho é seguir pelo trecho no qual não resta coisas a resolver.” — Cid Gomes, senador (PDT-CE)

 CSN/TLSA é técnica, não política
A decisão da concessionária é pragmática: começar por onde é mais barato e seguro. Investimentos dessa magnitude não suportam incertezas. Não há indício de perseguição política, como insinuado por setores pernambucanos.

 Crise de influência
A queda de Cabral escancara o desgaste da influência política de Pernambuco no governo federal — algo impensável há duas décadas, quando o estado era o epicentro da formulação de políticas públicas para o Nordeste.


O outro front: a Ferrovia Nordeste em risco

Enquanto a Transnordestina mobiliza holofotes, outro embate se desenha: a renovação da concessão da Ferrovia Transnordestina Logística (FTL) — a linha que liga Fortaleza a São Luís, com mais de 1.200 km operacionais e outros 3.000 km abandonados.

 A ameaça do TCU:
A proposta da TSLA prevê mais R$ 3 bilhões em investimentos, mas quer devolver os 3.000 km de trechos inoperantes. O TCU, no entanto, alerta para “pontos delicados” no acordo: valor da indenização, contrapartidas, cumprimento de metas passadas. A decisão sairá até outubro.

 A promessa dos VLTs:
Como compensação, a empresa propõe construir dois Veículos Leves sobre Trilhos (VLTs) em Campina Grande (PB) e Arapiraca (AL). Mas especialistas duvidam que esses projetos saiam do papel — ou que compensem a devolução de milhares de km de linhas férreas.


O que está em jogo

 O futuro do Nordeste sobre trilhos:
A disputa pela Sudene e pelas ferrovias não é apenas sobre cargos ou obras. É sobre o modelo de desenvolvimento que prevalecerá na região. De um lado, estados mais organizados e articulados, como o Ceará, avançam em infraestrutura e captação de recursos. De outro, velhos grupos políticos resistem em abrir mão de protagonismo — mesmo sem entregar resultados.

 O risco do desequilíbrio federativo:
Sem uma coordenação real da Sudene, o Nordeste corre o risco de se fragmentar ainda mais politicamente, perdendo a capacidade de articulação conjunta — exatamente o oposto do que previam os criadores da autarquia, lá em 1959.

 Como disse um ex-dirigente da Sudene ao Focus:

“A Sudene é como um volante. Se quem segura só olha pro próprio quintal, o carro não anda. Só gira em falso.”


Para terminar

A queda de Danilo Cabral não é apenas uma troca de comando. É sintoma de um redesenho silencioso no mapa do poder nordestino. O foco do desenvolvimento mudou de lugar — e agora a disputa não é mais ideológica, mas sim geográfica, técnica e pragmática.

Enquanto uns choram o ramal perdido, outros já escutam o apito do trem chegando.

FOCUS PODER

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