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Após achar possível petróleo, agricultor do Ceará perde renda extra e vive com um salário mínimo

Evando Moreira
Jornalista, fundador, editor, analista político.

Família de produtor rural em Tabuleiro do Norte acumula dívida de R$ 25 mil após tentativa frustrada de encontrar água.

“Nem água e nem dinheiro, fiquei só com a dívida”. É assim que o agricultor Sidrônio Moreira, de 63 anos, descreve a situação atual. O que começou com o sonho de encontrar água no terreno onde reside, na zona rural de Tabuleiro do Norte, se transformou num prejuízo mensal superior a R$ 2 mil, somado a uma dívida de R$ 25 mil decorrente de empréstimos.  

A história é contada pelo próprio agricultor e os filhos, Sidnei e Saullo Moreira, de 35 e 33 anos. Conforme relata a família, a perda da renda ocorreu após seu Sidrônio perfurar dois poços artesianos em busca de recursos para irrigar a plantação e alimentar os animais do Sítio Santo Estevão, a cerca de 35 km do centro do município. 

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No entanto, em novembro de 2024, veio a surpresa: em vez de água, do chão brotou um líquido escuro e de odor semelhante a óleo e asfalto fresco. De acordo com Sidnei, a família está sem plantar desde a descoberta, devido à proximidade dos campos aos poços e à falta de água. 

“A renda bruta da propriedade por mês é R$ 2.069. Por ano R$ 24.830. Isso era antes desse achado, mas agora a renda vem somente do salário da aposentadoria (R$ 1.621), pois deixamos de produzir, por conta da falta de chuva e por não ter achado água no poço”Sidnei Moreira

Agricultor e filho de seu Sidrônio

Com a água, a ideia era aumentar a renda a partir das plantações de milho, feijão e sorgo (cereal), além de investir na criação de animais, que hoje conta com cinco cabeças de gado, 18 caprinos e 20 aves (galinhas e capotes)

Na época, seu Sidrônio precisou fazer um empréstimo bancário de R$ 15 mil para contratar um serviço de perfuração de poço, e a esposa, Maria Luciene, alimentada pela esperança do recurso, fez um empréstimo de R$ 10 mil pouco tempo antes, com o objetivo de renovar o rebanho.

O que diz a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis 

Atualmente, a família aguarda o resultado da análise feita pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) sobre o achado.

A entidade foi contatada em julho de 2025, após o grupo receber orientações do engenheiro químico do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), do campus de Tabuleiro do Norte, Adriano Lima.

A agência, por sua vez, visitou o sítio em março deste ano, oito meses depois

Conforme relata seu Sidrônio, a orientação das autoridades é não entrar em contato com a substância e não realizar novas perfurações, em razão da natureza desconhecida do líquido e da possibilidade de contaminação. 

“Mesmo que eles mandassem mexer, eu não podia nem mexer agora, porque estou endividado”, lamenta. 

Questionada sobre o assunto, a ANP informou que “as informações coletadas estão sendo analisadas pela Agência, e os proprietários serão informados sobre todos os passos”.

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Conforme nota enviada ao Diário do Nordeste (leia na íntegra ao final do texto), a entidade explicou que a amostra coletada da substância será, inicialmente, analisada para determinar a natureza (aquosa, orgânica). 

Posteriormente, “caso haja indícios da presença de hidrocarbonetos, é feita a separação da fração orgânica para análise por cromatografia, e depois é feita a comparação do perfil obtido com o de amostras semelhantes (combustíveis, óleo lubrificantes, petróleo bruto)”.

Assim, “o tempo de análise varia com a complexidade do processo analítico investigativo”.

Investimento nos poços pode ser irrecuperável, diz especialista

Caso tivesse acesso adequado ao recurso, a propriedade do Sítio Santo Estevão poderia ver a renda superar, com folga, os atuais R$ 2.069 mensais. É o que defende o professor do Programa de Pós-Graduação em Economia Rural da Universidade Federal do Ceará (UFC), Vitor Hugo Miro. 

Segundo o também pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), a irrigação permitiria ampliar a escala das atividades atuais, aumentar a produção e acessar novas oportunidades de mercado.

“No semiárido, a água é o principal fator produtivo, com capacidade de transformar uma propriedade de subsistência em uma unidade mais eficiente e integrada. Com acesso à água, o senhor Sidrônio poderia realizar plantios regulares de milho, feijão e sorgo, aumentar a produtividade e até diversificar as atividades dentro da propriedade”Vitor Hugo Miro

Professor do Programa de Pós-Graduação em Economia Rural da UFC

O especialista também aponta que, sem manejo na terra, pode haver alguma perda de potencial produtivo ao longo do tempo.  Além disso, Miro acredita que o investimento no poço tende a se tornar um custo irrecuperável.

“É possível recorrer a culturas mais resistentes à seca, como o sorgo, o milheto e a palma forrageira. No entanto, essas culturas apresentam menor valor agregado e maior variabilidade de produção. Na pecuária, uma alternativa é priorizar criações mais adaptadas, como caprinos, que são mais resilientes à escassez hídrica. Ainda assim, qualquer atividade permanece limitada pela falta de acesso à água em condições adequadas”, indica.

Outro fator preocupante é que, mesmo que seja confirmada a presença de petróleo, especialistas apontam que a exploração do recurso dificilmente teria viabilidade econômica no local. 

Adutora ameniza problema, mas custo preocupa agricultor

Após a repercussão do caso, Sidrônio passou a receber maior quantidade de água de uma adutora antiga da região. A estrutura é composta por tubulações que transportam o recurso de estações de captação ou tratamento até reservatórios. 

Além disso, uma nova adutora deve ser inaugurada em breve. O cenário, no entanto, está longe de ser o ideal.

“A água da adutora é água pouca. Só dá mesmo pra ir alimentando os bichos. Tem uma adutora nova, mas ninguém pode nem fazer muita coisa com essa água, porque é uma água tratada e aí tem que pagar. Como é que eu vou pagar? Minha preocupação é esse negócio do banco, né?”, ressalta. 

Sem prazo para que o impasse seja resolvido, Sidrônio se apoia na fé e na esperança. Mesmo de “mãos atadas”, o agricultor ainda acredita em um final positivo. 

“Vamos continuar caçando água por aqui. Não é possível que eu não tenha uma sorte de arrumar uma aguazinha né? Eu tô pelejando. Mas quem espera por Deus não cansa”Sidrônio

Agricultor

Confira, a seguir, a nota da ANP na íntegra: 

A ANP foi comunicada pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) da “ocorrência de um possível indício de petróleo bruto em uma propriedade rural localizada no município de Tabuleiro do Norte/CE, durante atividade de perfuração de poço para captação de água”, e abriu processo administrativo para tratamento do caso.

Em 12/3/2026, a ANP esteve no local para analisar a situação, verificar as condições do poço e passar orientações aos proprietários, em especial relativos à segurança das pessoas e do meio ambiente. Essa visita fez parte do processo que a ANP abriu para apurar o caso. As informações coletadas estão sendo analisadas pela Agência, e os proprietários serão informados sobre todos os passos.

A ANP não realizou nenhuma interdição. 

A Agência foi acompanhada, na visita, do órgão ambiental estadual (SEMACE), que também realizou recomendações. Para mais informações, neste caso, a SEMACE deve ser procurada.

Esclarecemos ainda que uma amostra do material coletada pelo IFCE foi transportada à Agência, que realizará a análise. Primeiramente, uma identificação preliminar da amostra, para determinar sua natureza (aquosa, orgânica). Caso haja indícios da presença de hidrocarbonetos, é feita a separação da fração orgânica para análise por cromatografia, e depois é feita a comparação do perfil obtido com o de amostras semelhantes (combustíveis, óleo lubrificantes, petróleo bruto). O tempo de análise varia com a complexidade do processo analítico investigativo.

DIÁRIO DO NORDESTE

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