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Bancadas religiosas; Por Lúcio Alcântara

Evando Moreira
Jornalista, fundador, editor, analista político.

A escolha de um novo Papa deu munição à imprensa para especular sobre as características do escolhido, assim como, a propósito de divisões internas sobre a forma de abordar temas delicados que constituem um desafio para a Igreja. Por outro lado, em muitos países, ela vem perdendo fiéis que se declaram ateus ou transitam para outras religiões, ainda que cristãs.

O Globo de 9 de maio, traz uma matéria sobre a organização da bancada católica no Congresso Nacional, por sinal presidida pelo deputado Luís Gastão, do Ceará. Quando fui deputado, o que havia era um Grupo Parlamentar Cristão que congregava católicos e evangélicos, liderado por um padre jesuíta, Padre Aleixo, e um pastor de origem alemã, de cujo nome me lembro, sem que saiba escrevê-lo. Fazíamos uma reunião por mês, e o convívio era fraterno. Estou falando do fim dos anos 1980, início dos 1990.

Estávamos então longe da polarização política e religiosa instalada no Brasil depois de surgirem denominações que apostaram no conflito para conquistar adeptos. Nossas reuniões estavam voltadas para reflexões sobre o evangelho, com prédicas dos dois religiosos. Em suma, em torno da mesa nos reuníamos para orar. Era bom, suave e amistoso.

A par disso, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) acompanhava a tramitação das matérias e interagia diretamente com os parlamentares, apresentando a opinião da Igreja Católica. Um cearense de Jaguaretama, Padre Ernani Pinheiro, de quem me tornei amigo, era o interlocutor da CNBB no parlamento.

Dou um exemplo: a lei que dispõe sobre a captação ilícita de sufrágio — leia-se compra de votos — teve origem em um projeto de iniciativa popular conduzido por um movimento de leigos católicos a partir de São Paulo. No Senado, fui relator desse projeto, a pedido do Padre Ernani, numa das últimas sessões do ano legislativo. As resistências surdas à proposição não tiveram como se opor diante do conteúdo moral da proposta e do relatório que apresentei. A lei vigora, ainda que nem sempre seja respeitada.

Não sei quais serão os efeitos desse novo posicionamento dos parlamentares católicos e os resultados práticos da atuação do grupo. Confio na habilidade e bom senso do amigo Luís Gastão para que daí resultem ganhos para a Igreja no Brasil.

Tudo de que precisamos é de união e amor ao sofredor povo de Deus.

Lúcio Gonçalo de Alcântara, médico, político e escritor. Foi prefeito de Fortaleza, deputado federal, senador e governador do Ceará. É membro da Academia Cearense de Letras.

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